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Obesidade. A doença que é muito mais do que “um problema meramente estético”

21/05/2018

Obesidade. Excesso de peso. Condição médica caraterizada pela acumulação excessiva de tecido adiposo no organismo ao ponto de colocar a saúde em risco. Obesidade. A pandemia do século XXI, o trampolim para um futuro sem saúde.

“Temos falado muito sobre obesidade, mas temos de falar mais. Temos, sobretudo, de falar no conceito obesidade-doença, porque as pessoas, de um modo geral, ainda olham para a obesidade como um problema meramente estético ou cosmético”.

Em entrevista à Women’s Health, no âmbito do Dia Nacional e Europeu da Luta Contra a Obesidade – que se celebra este sábado, 19 de maio – Paula Freitas, presidente da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade, defende que:

“Temos de ensinar às pessoas é que a obesidade é uma doença, que as pessoas têm uma doença, que devem procurar ajuda e tratar-se. A obesidade é por si só uma doença, mas traz como consequência múltiplas doenças”.

A obesidade, explica, “não é uma fatalidade, mas é possível tratar, apesar de ser uma doença crónica. E este é um dos problemas: as pessoas não entendem que por ser uma doença crónica, o tratamento é para toda a vida”.

E parte desse tratamento passa por uma dieta. “Temos de fazer uma dieta para todo o sempre e ensinar às pessoas como comer corretamente”, alerta.

 Obesidade na génese da doença…

“O que as pessoas precisam de saber, e não sabem, de facto, porque ninguém lhes ensina, é que ser sedentário e ter excesso de peso vai fazer com que tenha maior probabilidade de, no futuro, ter uma série de doenças”.

A especialista fala, por exemplo, da diabetes. Mas há mais: “colesterol alto, doença cardiovascular, um enfarte do miocárdio, problemas respiratórios, até mesmo infertilidade e determinados tipos de cancro”.

“Muitas vezes as pessoas têm diabetes e querem tratar a diabetes, têm uma apneia do sono e querem tratar a apneia do sono, têm problemas articulares e querem resolvê-los, mas o que está na génese disto tudo é a obesidade. Se fossemos ao cerne da questão, conseguíamos tratar e evitar uma série de patologias associadas à obesidade”.

“Temos também de ensinar que se a pessoa mudar o estilo de vida e perder entre 5% a 10% do seu peso corporal, muitas das doenças que se tem vão desaparecer”.

 

 …mas também consequência da vida

Mas é a obesidade é muito mais do que uma doença que traz doenças, é uma patologia de causa multifatorial – sendo que o comportamento humano é dos fatores com mais peso nesta equação.

“Apesar de ser uma doença multifatorial, a obesidade resulta sempre, de um modo muito geral, do desequilíbrio alimentar. Fatores pessoais, de higiene, fatores hormonais, o avançar da idade, o metabolismo” são algumas das outras causas.

Mas há também “uma série de fármacos que as pessoas têm de fazer para outras patologias e que podem impulsionar a obesidade. Mas o estilo de vida de hoje, o sedentarismo e o facto de não termos atividades de dispêndio energético. O nosso modo de trabalhar, de nos divertirmos, os nossos momentos de lazer são todos muito sedentários e isso tem impacto. Perturbações do sono também, pessoas que dormem menos horas correm um maior risco de ter obesidade”.

“Há doenças hormonais que estão associadas à obesidade, como o hipotiroidismo não tratado, as doenças com aumento de cortisol – a chamada síndrome de Cushing -, a síndrome do ovário poliquístico, que também estão na génese da obesidade. Existem determinados tipos de anticoncecionais que também podem ser um bocadinho promotores de obesidade”.

Depois temos os fatores ambientais. “Vivemos rodeados de uma série de substâncias que são disruptores endócrinos e que existem no ambiente e que nos rodeiam”. Estão em copos de plástico, cremes, produtos alimentares e outros itens comuns ao nosso dia a dia e que vemos como inofensivos.

“Tudo isto pode ter impacto, até as nossas estirpes bacterianas podem ter impacto. São tantos os fatores, sejam individuais, do ambiente, sedentarismo, etc.”

E há ainda a alimentação reativa. “As pessoas às vezes têm dificuldade em parar, sabem que já comeram o suficiente, mas não têm controlo cognitivo na gestão alimentar”, esclarece.

 

 Obesidade e mulheres. Um problema que pode chegar às gerações futuras

Além do risco de todas as doenças acima mencionadas, a obesidade pode ter um maior impacto no sexo feminino.

“Uma mulher obesa tem também mais problemas quer durante a gestação, quer no momento pós parto. E até mesmo os recém-nascidos podem ter mais problemas devido a isso”.

Segundo a especialista, “é preciso que as mulheres percam peso para adquirirem ciclos regulares, passarem a menstruar e aumentar a fertilidade. As mulheres com obesidade têm maiores riscos de diabetes gestacional, que aparece pela primeira vez durante a gestação e que também é um problema”.

“Problemas ósseos e articulares, problemas vasculares, como as varizes”, são outras consequências, nunca esquecendo que as mulheres – e os homens! – com obesidade têm “um maior risco de problemas tromboembólicos”.

 E qual a solução? Para já, aumentar a educação alimentar

Apesar de todos os alertas e de nunca se ter falado tanto em obesidade nos dias de hoje, a mensagem parece ainda não ter chegado a todos.

Quando questionada sobre o que está a falhar, Paula Freitas não hesitou em apontar o dedo à “iliteracia” que diz ser “muito grande”.

“O que todos nós temos de fazer é promover uma educação para a saúde. Ou seja, temos de educar as pessoas sobre alguns aspetos de vida saudável. Nesses aspetos de vida saudável estão coisas muito simples, como ser ativo, não fumar, não aumentar o peso. Se não aumentar o peso e tiver uma vida saudável, a pessoa vai ter uma vida muito mais longa, vai envelhecer muito melhor e não vai ter uma série de doenças”, explica.

“O ditado português diz que a ocasião faz o ladrão, se está disponível, comemos, todos nós temos essa noção. O facto de as coisas estarem acessíveis, são muito mais facilmente ingeridas”, critica, embora defenda que qualquer medida em prol da luta contra a obesidade – como a taxa dos alimentos açucarados – é bem-vinda.

“Todas as medidas são boas. Depois podemos é tentar medir o impacto que isso tem. É verdade que os alimentos altamente calóricos e densamente energéticos nem sempre são os mais caros e mesmo com as taxas as pessoas ainda os conseguem comprar, mas só o facto de se falar sobre o assunto já põe as pessoas a pensar. Temos é de educar as pessoas para as escolhas saudáveis”.

Mas o açúcar não é o único inimigo, as gorduras também o são. Contudo, frisa, “até mesmo as coisas que são saudáveis, se comidas em excesso, tornam-se não saudáveis”.

“É a diferença entre um medicamento e um veneno. Dá-mos X miligramas ou microgramas de determinada substância, mas se a pessoa tomar em dose excessiva pode morrer. Com a comida é exatamente igual, a comida é o nosso combustível, mas devemos ingerir na proporção adequada daquilo que é a nossa necessidade energética”, frisa.

 

 O que podem fazer as mulheres para fugir a sete pés da obesidade e de todas as doenças que aparecem à boleia desta patologia? Em primeiro lugar, mudar os hábitos diários

“Diria às mulheres para se manterem ativas e terem alguma prática regular de exercício físico, para terem uma alimentação saudável, para não fumarem e para terem uma vida o quanto possível ao ar livre e feliz”.

Além disso, a especialista aconselharia as mulheres a “tentarem aprender – com ajuda dos profissionais de saúde – a conseguir uma meta que é vida saudável, para conseguirem ter um envelhecimento saudável e de qualidade”.

E porque é que importa começar a lutar contra a obesidade o quanto antes? Porque “se hoje uma mulher jovem não começa já a integrar conceitos de vida saudável, não vai ter um envelhecimento saudável, vai ter um envelhecimento problemático e cheio de doenças”.